EU ESTAVA LÁ — O DIA EM QUE A PR-092 PAROU POR CAUSA DE UM CAMINHÃO EM CHAMAS

EU ESTAVA LÁ — QUANDO O REPÓRTER VIVE O FATO
“Eu Estava Lá” é o espaço onde conto as histórias que não apenas registrei — eu vivi. Momentos de tensão, risco, urgência e bastidores que só enxerga quem estava no local, sentindo o clima e acompanhando cada segundo da ocorrência. Aqui, o leitor conhece o que a câmera não mostra e o que a imprensa tradicional não alcança.

Foto: Arquivo Voz do Povo
Mayara Crystiane da Silva


Da Redação | Por José Adão

Era início de tarde de um domingo que tinha tudo pra ser comum. Céu limpo, sol forte, aquele silêncio típico da PR-092 nos finais de semana quando o movimento é pequeno. Mas quando o telefone tocou, e eu atendi, era um seguidor avisando que havia algo pegando fogo em Calógeras, não pensei duas vezes; simplesmente disse vamos lá. Foram 17/18 quilometros de espectativa,  antes mesmo de chegar ao local, dava para sentir o cheiro de perigo no ar — fumaça, borracha queimada e uma inquietação que só quem cobre os acidentes nas estradas entende.



E eu estava lá..

Conseguimos transpor a fila de veiculos parados na rodovia,  e a cena não era muito legal. A escolta armada que acompanhava o caminhão havia bloqueado a rodovia a uma certa distancia. depois de muita choradeira, o pessoal da escolta me levou até o local do incendio. Ao se aproximar de onde o caminhão estava a Defesa Civil, já trabalhava para conter o fogo; tinha sido acionada por moradores que viram o fogo começar. Ninguém sabia ao certo o que havia dentro da carroceria. O caminhoneiro tentava explicar, nervoso, apontando para o caminhão: “É material explosivo... é dinamite…” Mas parece que ninguem acreditava. "Nem eu acreditava", um caminhão tomado pelo fogo carregado de dinamite não explodiu?

E ali, naquele instante, a tarde virou tensão absoluta.

Foto: Arquivo Voz do Povo
José Adão Mendes

A chegada dos Bombeiros — e o início da evacuação.
Minutos depois chegaram os Bombeiros de Jaguariaíva. A sirene rasgou o silêncio, e a expressão deles dizia tudo: aquilo não era um incêndio comum. O comandante (Sargento Junior) se aproximou rápido, olhou a placa de identificação da carga, pegou a nota fiscal da mão do motorista do caminhão, e o que leu só confirmou o que já havia caído como um soco no estômago de todo mundo:


"O caminhão estava carregado de produtos para fazer DINAMITE!!!!."

Foi ali que tudo mudou. Bastava que alguns produtos se misturassem para que o pior acontecesse.
O que era curiosidade virou medo.
E o que era estrada virou zona de risco.

Os bombeiros começaram a gritar para afastar todo mundo. Motoristas, moradores, curiosos... todos retirados às pressas.

Eu me lembro do barulho do vento misturado com as ordens rápidas:

“Afasta! Todo mundo pra trás! Agora!”
o trecho da PR-092 foi isolado completamente. um quilometro de cada lado de onde estava o caminhão. E não seria por pouco tempo.

Foto: Arquivo Voz do Povo
José Adão Mendes

20 horas de tensão — um relógio que não andava
A tarde virou noite.
A noite virou madrugada.
E a madrugada virou manhã.

Foram mais de 20 horas com o trecho totalmente bloqueado, cercado por viaturas, luzes piscando e equipes exaustas. O risco de explosão era tão real que não havia sequer como tentar apagar o fogo.

Qualquer faísca errada, qualquer centímetro de avanço das chamas, e nada restaria ali.

Eu estava lá quase o tempo inteiro, acompanhando cada movimento. O barulho do fogo, os estalos, a fumaça densa — tudo parecia um aviso de que a estrada podia virar um craterão a qualquer momento.


Especialistas de Curitiba — quando o silêncio virou estratégia
No meio da madrugada, chegaram os especialistas em explosivos vindos de Curitiba.

Eles vinham como última esperança de controlar o cenário. Cada passo deles era medido, calculado, pesado. A rodovia se transformou num enorme corredor de segurança — quilômetros interditados, veículos parados, celulares desligados, e aquela sensação de que qualquer vibração poderia mudar tudo.


A orientação era simples e assustadora:
Ninguém chega perto até que eles digam que é seguro.

E aí começou a longa análise:
temperatura, estrutura, proximidade das chamas com o carregamento, estabilidade do material explosivo… uma engenharia de vida ou morte.

A liberação — quando o ar voltou a entrar nos pulmões

Depois de horas que pareciam dias, veio a notícia que todos esperavam:

a carga estava resfriada, estabilizada e poderia ser removida.

Ver o caminhão sendo lentamente retirado, com as equipes em postura absoluta de alerta, foi como assistir o final de um filme que poderia ter acabado de várias maneiras — e nenhuma delas era boa.

A pista foi liberada, mas a sensação de alívio demorou para dissipar.


Eu estava lá. E nunca esqueci.
Aquele domingo marcou minha carreira.

Não pela gravação, não pela matéria — mas pela linha fina que separa o caos da sobrevivência.

A PR-092 já viu muita coisa… mas aquele dia, aquela tarde, aquela noite…

Ali, José Adão — repórter — esteve diante de algo que poderia ter mudado a história da região.

E essa é a estreia do quadro “Eu Estava Lá”:

histórias que vivi, momentos que marcaram minha vida e que merecem ser lembrados.

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