Já é difícil imaginar uma criança de 10 anos dirigindo um carro, mais difícil ainda é imaginar uma criança de 10 anos dirigindo um carro e trocando tiros com a polícia... O fato é que, no país dos autos de resistência forjados, duvidar da Polícia é necessário. Como já dizia um ex-secretário de segurança do Rio de Janeiro:

Isso de forjar auto de resistência é algo muito antigo, é feito há pelo menos 20 anos. São três situações: o confronto legal, o confronto ilegal, isto é, quando seria evitável, e a execução sumária.

Enfim. Quem era a criança morta? Como ela vivia? Como era seu presente e perspectiva de futuro? Antes de adentrar nestas questões, um conselho importante que deve preceder debates desse tipo:


Quando eu era mais jovem e mais vulnerável, meu pai me deu um conselho que muitas vezes volta à minha mente: Sempre que tiver vontade de criticar alguém – recomendou-me –, lembre primeiro que nem todas as pessoas do mundo tiveram as vantagens que você teve

( FITZGERALD, Scott. O Grande Gatsby)

Pois bem, o fato é que criança nenhuma nasce sabendo pegar em arma ou nasce "com desejo de sangue". Estas coisas começam a entrar na vida da criança aos poucos, no dia a dia... A criança escolhe? Bem, dizia Karl Marx no livro 18 Brumário de Louis Bonaparte que


Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem segundo a sua livre vontade; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos.

A questão é que criança nenhuma, que se encontra em estado de delinquência, pediu para vir ao mundo e pediu para vir ao mundo na família que veio. E diante desta afirmação você descobre que a criança de 10 anos morta pela PM de São Paulo, nunca teve chance de ter uma vida boa. Segundo o Jornal Folha de São Paulo, "sem lar, criança morta em perseguição da polícia já dormiu até em van".

Uma tristeza só!


Os moradores da favela do Piolho se acostumaram a ver o garoto descalço, sujo e com fome. Ele e a família enfrentaram dois incêndios que destruíram parte da comunidade nos últimos anos.

E se olharmos o histórico de vida dos pais...
PRISÕES DOS PAIS

C. F. F. (mãe do menino morto)> nov.2006: tentativa de furto

Out.2007: tentativa de furto

Dez.2007: roubo

Set.2011: furto

F. S. (pai do menino morto)

Ago.2009: tráfico de entorpecente

Jan.2013: tráfico de entorpecente e corrupção ativa



Eram estas as referências do menino. Diziam os mais velhos que "não nasce fruto bom em árvore ruim...".

Mas, e de quem é a culpa? Só dos pais? Não! A Constituição Federal de 88 diz, em seu artigo 227, que

É dever da família, da sociedade e do Estadoassegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.

Nos mesmos termos o artigo do ECA:


É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária.

Os culpados somos todos nós que legitimamos uma sociedade desigual e degradante. Somos uma sociedade que marginaliza as pessoas e, depois, as chamamos de marginais. O fato é que ninguém é marginal, mas marginalizado - pois é a sociedade quem, por suas práticas de segregação, empurra muitos para a margem...

O que esperar de uma criança que vive numa sociedade ondepessoas se acostumaram a ver uma criança de 10 anos descalça, suja e com fome?! Uma sociedade, que se diz cristã, se acostumar com o fato de criança andar descalça, suja e com fome é contradizer a ordem bíblica de que não deveríamos nos conformar com este mundo, mas transforma-lo... Como é que se acostuma com isto?!

Complicado esperar que uma criança que tenha o lar que o Ítalo tinha possa agir conforme a sociedade quer. Já dizia o Gabriel, o pensador, que"aquilo que o mundo me pede, não é o que o mundo me dá".


E devemos nos atentar para o fato de que os cuidados para com a saúde do lar devem ser redobrados, principalmente se se pensar que as violências praticadas no lar tendem a servir de paradigmas para outras violências a serem praticadas no meio social.

O lar deve ser harmonioso, mas, na falta deste, a sociedade também deve proporcionar meios de cuidar destas crianças.

E sobre matar uma criança de 10 anos com um tiro na cabeça, eu acho que 10 anos é pouca idade para desistir de alguém. Há inúmeros exemplos de crianças infratoras que se transformaram - ex-menor infrator ganha prêmio científico por corrigir acidez do solo - mas aí é preciso muita seriedade e boa vontade do poder público e da sociedade para considerar que todos devem assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida das crianças. Mas nossos interesses parecem ser outros...

Um policial militar de São Paulo matou uma criança de 10 anos com um tiro na cabeça: mas ele não apertou o gatilho sozinho!
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