O lulopetismo, como todos os governantes anteriores, cometeu incontáveis pecados na gestão da coisa pública. No período 2003-2013, por sinal, foi um dos mais corruptos de toda nossa História de desmandos. Por uma razão simples: foi um dos períodos que mais circulou dinheiro no país, favorecido pelo preço das commodities, pela regularidade cambial assim como pelo crescimento Chinês. Mas não faltou pão para as classes populares nem bonança para as oligarquias abastadas.

No meio da festança e da alegria geral (panes et circenses), que fabricaram não apenas a chamada classe C e seu consumismo senão, sobretudo, dezenas de bilionários, o mensalão apareceu (2005) e o lulopetismo resistiu. Banqueiros, marqueteiros e políticos foram para a cadeia, mas nada seriamente grave ocorreu para o governo respectivo, no seu primeiro decênio. A prova maior foi que ganhou quatro eleições presidenciais seguidas. Lição que se extrai: a corrupção, por si só, num Estado licencioso e cleptocrata (imoral, devasso e degenerado ético), quando todo mundo está ganhando dinheiro, não derruba o governo. Tampouco a mídia incentiva o povo a ir para as ruas (mesmo sabendo das falcatruas).

Os governos tampouco correm muito risco quando deixam faltar pão (alimentos, consumo) para as classes populares (sempre acostumadas com pouco ou nada). O maior risco de todos os governantes está em favorecer os endinheirados (ou inclusive os endinheirados) por um período (10, dos 13 anos de lulopetismo) e depois não saber manter as condições econômicas favoráveis para o aumento ou preservação do “pão” deles (leia-se: da sua gananciosa riqueza, das suas nababescas rendas, dos seus privilegiados benefícios, dos seus facilitados acessos aos bancos públicos – BNDES, Banco do Brasil, Caixa Econômica – e fundos de pensão etc.).

Vários setores das oligarquias podres de endinheiradas não toleram que os governos, sobretudo os licenciosos (corruptos) sejam “pai dos pobres”. Mas o pior erro, na visão deles, é o governo não ser ou deixar de ser “mãe dos privilegiados” (esse erro é mortal). Que o “Bolsa Empresário” seja dez vezes maior que o “Bolsa Família” e mais do que o dobro do déficit primário do governo (R$ 120 bilhões) não basta para aplacar a ira das elites quando o número delas vem caindo[1]. A revista Forbes–2016 mostra apenas 31 bilionários brasileiros, 24 menos que 2015, que já evidenciava menos que 2014[2]. Isso, na perspectiva dos donos abonados do poder, é absolutamente intolerável.

As motivações oficiais do cartão vermelho ao lulopetismo (a que vai para a História) são dois crimes: pedaladas fiscais e concessão de créditos suplementares (que todos os governos fazem). A motivação social (estimulada pelas mídias poderosas) é a corrupção endêmica do governo lulopetista, sobretudo a já evidenciada pela Lava Jato. A motivação profunda (o oculto do aparente) está relacionada com o descontentamento das elites podres de endinheiradas, que toleraram o inimigo lulopetista por um período (o da bonança), mesmo sabendo que se tratava de um governo corrupto (aliás, corrupção incentivada e alimentada precisamente por elas). Não consta que o PT tenha recebido em seu projeto aloprado de poder propinas bilionárias das classes populares.

A lei da selva neocolonialista é clara: criadas as condições desfavoráveis às oligarquias econômicas (falta de confiança, gastança excessiva, dificuldade de acesso aos bancos públicos e aos contratos nababescos do poder público etc.), elimina-se o fragilizado inimigo, que não oferece garantias solventes de um “bom futuro” (leia-se: manutenção do statu quo). O cartão vermelho acontece com muito maior razão quando o inimigo – com todo o poder do Estado licencioso – não tem forças para eliminar ou diminuir o risco de cadeia das elites bilionárias (que se tornou uma realidade com a Operação Lava Jato). Em momentos de aguda ameaça para a liberdade e para o patrimônio, o melhor é ter amigos no governo (como Michel Temer e o PMDB), que faça a “ponte para o futuro” (que não passa de um passado que nunca passa), não inimigos (totalmente enrascados com a polícia e a Justiça).

Professor
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