Trabalhadora terceirizada relata ter ouvido expressão discriminatória atribuída à direção da unidade e afirma que foi retirada do local após questionar os episódios
Da Redação | Por José Adão
A Rede Nacional de Mulheres Negras no Combate à Violência divulgou uma carta de denúncia e repúdio na qual cobra a apuração de relatos de supostas práticas racistas em um Centro Municipal de Educação Infantil de Arapoti.
Segundo a carta, a denunciante é uma mulher negra, integrante de uma comunidade quilombola, e trabalhava havia aproximadamente três anos no CMEI por meio de uma empresa terceirizada que presta serviços ao município.
FRASE TERIA SIDO DITA DURANTE LIMPEZA DE LOUSA
Um dos episódios relatados teria acontecido no dia 14 de agosto. A trabalhadora e outras funcionárias realizavam a limpeza de uma lousa e retiravam fitas que estavam coladas no quadro.
De acordo com o relato reproduzido pela Rede Nacional, a diretora da unidade teria se aproximado para ajudar e, posteriormente, afirmado que “esse serviço era de preto”.
A trabalhadora diz que questionou imediatamente a fala, afirmando que se tratava de racismo. Conforme sua versão, a diretora teria apenas olhado, sorrido e deixado o local, sem apresentar pedido de desculpas.
A declaração é uma alegação apresentada pela trabalhadora e ainda precisa ser apurada pelos órgãos competentes. A carta não representa decisão administrativa, policial ou judicial sobre o caso.
OUTRAS SITUAÇÕES SÃO RELATADAS
A trabalhadora também descreve outros episódios que, dentro do contexto apresentado, foram interpretados por ela como discriminatórios.
Entre os relatos está a expressão “achei que era gente”, que teria sido utilizada pela diretora em algumas ocasiões quando a trabalhadora chegava ao portão da unidade.
A carta também menciona uma situação envolvendo a entrega semanal de frutas. Segundo a denunciante, a diretora teria demonstrado resistência em receber os produtos quando a entrega foi feita por um trabalhador negro, diferentemente do que aconteceria quando o serviço era realizado por uma pessoa de pele mais clara.
Outro episódio citado envolve a entrega de um chaveiro para que a trabalhadora o guardasse. Isoladamente, a situação não comprova discriminação, mas foi incluída entre os acontecimentos que, segundo a denunciante, formariam um contexto de tratamento desigual.
TRABALHADORAS TERIAM SIDO RETIRADAS DA UNIDADE
Conforme a carta, a denunciante e uma colega foram chamadas para uma reunião na qual teriam sido confrontadas com falas atribuídas a elas por uma terceira pessoa.
As duas trabalhadoras teriam negado as acusações e solicitado a presença da pessoa responsável pelas informações para que os fatos fossem esclarecidos.
Ainda de acordo com o relato, quando a denunciante voltou a questionar as situações que considerava racistas, foi informada de que deveria deixar o local e de que não faria mais parte da equipe do CMEI.
A trabalhadora afirma que a maneira como ela e a colega deixaram a unidade foi humilhante. A carta também relata que, anteriormente, a direção teria informado à empresa terceirizada que o trabalho das duas era considerado bom, mas que não existia simpatia por elas.
O documento não esclarece se as trabalhadoras foram demitidas, transferidas para outro local ou somente afastadas daquela unidade.
ENTIDADE PEDE INVESTIGAÇÃO
A Rede Nacional de Mulheres Negras no Combate à Violência afirma que recebeu o relato com seriedade e repudia práticas racistas, discriminatórias, humilhantes ou constrangedoras contra mulheres negras no ambiente de trabalho.
A entidade ressalta que a condição de trabalhadora terceirizada não reduz direitos fundamentais e que o pertencimento a uma comunidade quilombola não pode ser motivo de discriminação ou tratamento desigual.
A própria carta esclarece que a manifestação não pretende antecipar conclusões sobre responsabilidades individuais. O objetivo declarado é cobrar a investigação dos fatos e assegurar que a trabalhadora seja ouvida.
MOVIMENTO LOCAL JÁ HAVIA SE MANIFESTADO
No dia 16 de setembro, um movimento de defesa das mulheres de Arapoti também divulgou uma nota em apoio a duas mulheres negras que trabalhavam em um Centro Municipal de Educação Infantil e relataram uma situação de racismo.
Na ocasião, o coletivo informou que as providências legais e institucionais estavam sendo adotadas junto aos órgãos competentes. A nota não revelou os nomes das trabalhadoras nem apresentou detalhes que pudessem aumentar sua exposição.
A nova carta amplia as informações sobre o caso e apresenta a versão de uma das trabalhadoras.
OUTRO LADO
A carta reúne o relato da denunciante e o posicionamento da entidade. Os fatos narrados ainda dependem de apuração e do direito de manifestação das pessoas e instituições citadas.
Até a elaboração desta matéria, não foi apresentado ao Voz do Povo um posicionamento da Prefeitura de Arapoti, da Secretaria Municipal de Educação, da empresa terceirizada ou da direção da unidade.
O espaço permanece aberto para que os envolvidos apresentem suas versões. A matéria será atualizada caso sejam divulgadas informações oficiais, medidas administrativas ou esclarecimentos sobre o caso.

















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