Por José Adão – Voz do Povo
Era final de tarde. Um feriado preguiçoso, abafado, daqueles que deixam a cidade com cheiro de domingo parado. 21 de abril de 2017 tinha tudo para terminar quieto.
Mas por volta das 17h, a calmaria começou a se desfazer como papel molhado. Como eu morava próximo a Cadeia Pública de Arapoti, sempre via movimentações, mas nada de anormal. Naquele dia o som de uma sirene fina estridente que não cessava.Alta! Aguda! Com aquele tom que o corpo reconhece antes da mente. Um grito mecânico dizendo: “Corre! A coisa é grande.”
Depois de um tempo, resolvi ir ver o que estava acontecendo; quando dobrei a esquina, senti a temperatura cair por dentro.
O policial civil Paulão, parecia extremamente preocupado... Vermelho. Gritando de um jeito que eu nunca tinha visto:
— SAI DAÍ! SE AFASTA! AGORA! AGORA!
Paulo era um homem que conhecia cada centímetro daquele lugar — e sabia que algo grave estaria acontecendo.
“Os presos tentaram uma fuga em massa, mas eu consegui trancar os portões antes, mas fizeram um agente de refém... Agora eles estão tentando arrebenta a porta... Sai daí pois não sei o que vai acontecer!!!”
Eu meio sem saber o que realmente estava acontecendo, mas ouvi a determinação do policial. Voltei, peguei o carro e dei a volta na quadra. Até a rua de cima.
Dali, dava para enxergar o pátio da cadeia por cima do muro, percebi que o ar em Arapoti tinha mudado. Parecia pesado, elétrico, carregado de um jeito que faz o coração bater mais rápido, mesmo sem saber o motivo.
A cena que se formava era de filme — mas daqueles que a gente preferia nunca ter assistido. Paulão agora mais contido subiu em cima de um caminhão de arma em punho demonstrava saber o que estava fazendo.
Não demorou muito e as viaturas começaram a chegar feito enxame: Primeiro uma. Depois outra. E outra... Polícia Militar, agentes penitenciários, policiais civis, Policiais de folga, outros vindo de cidades vizinhas. Em minutos, parecia que o Estado inteiro corria para Arapoti.
Quando a notícia se espalhou — “A cadeia está em rebelião” — o pânico veio junto.
Na frente do DEPEN, se formou uma multidão do nada. Familiares desesperados, mães chorando com a mão na boca, mulheres rezando alto, quase em transe e outras quietas, com olhar perdido, como se tentassem enxergar através dos portões de ferro.
E o contraste mais assustador de todos era lá dentro:
Nenhum grito!
Nenhuma correria!
Nenhum tumulto!
Silêncio... Um silêncio de quem está negociando com o desconhecido.
Silêncio que diz que qualquer coisa pode acontecer — inclusive o pior. Foi nesse cenário que surgiu o policial civil Ângelo Simões, que se colocou à frente como negociador.
Ângelo tinha aquela calma rara uma postura firme, olhar que não vacila, respiração controlada. Era nítido que ele segurava o caos com as pontas dos dedos.
E então, por volta das 18h30, tudo virou. Paulão veio ao pátio e gritou:
"PRECISAMOS DE ALGUÉM DA IMPRENSA! ALGUM JORNALISTA QUER ENTRAR?"
A pergunta bateu como um choque, ninguém se mexeu por um segundo. Eu me mexi! Porque era ali... era naquela hora. Era aquela história que Arapoti nunca poderia ouvir pela metade.
Disparei em direção ao portão e entrei... Qundo acessei o corredor da cadeia, parecia que tinha cheiro de concreto quente e tensão pura; a sensação era de estar caminhando dentro de um fio desencapado.
Policiais com fuzis, escudos; Coletes brilhando sob a luz fraca. O olhar de cada agente dizia a mesma coisa, “Se isso desandar, não tem volta.” Parecia que o ar tinha forma.
Eu sentia o peso no rosto, nos ombros, na respiração. Parei perto da porta de ferro com a janelinha estreita que dava direto ao corredor dos presos.
Foi ali que ouvi a vozes perturbadas dos presos pelas tensões em que estavam evolvidos.
Depois das primeiras horas de negociações bem sucedidas da Polícia Civil, eles estavam dispostos a liberar o agente mantido como refém, porém, para surpresa de todos, não puderam. Os detentos haviam recebido orientação de presos de outras unidades que se diziam ligados ao PCC, para que mantivessem a rebelião por pelo menos 24 horas para ganhar maior representatividade e que a rebelião desse mais repercussão.
O negociador, com toda habilidade necessária, conseguiu estender as negociações durante toda a noite para assegurar que, durante o periodo da rebelião a integridade física do agente penitenciário fosse respeitada pelos presos. Esse era o fator mais importante naquele momento e estava acima de tudo.
O pessoal do DEPEM pediu pra mim sair; quando saí fora do portão, virei alvo de uma multidão desesperada. Um mar de pessoas me cercou ao mesmo tempo. E todos queriam saber dos parentes presos.
— “Meu filho tá vivo?”
— “Tem confronto?”
— “Você viu ele?
— "Pelo amor de Deus, fala alguma coisa!”
Respirei fundo e disse o que sabia: “O refém está vivo, não há feridos, não tem confronto dentro da cadeia.”
Algumas pessoas fraquejaram, outras mãos apertaram as minhas como se eu fosse entregar uma salvação; algumas mães se ajoelharam orando por seu filhos. Mas a verdade é que todos nós estávamos no escuro, esperando o próximo capítulo.
A noite foi um arrasto. O negociador e o toda equipe de apoio trabalhavam firmemente para que pudessem solucionar o problema com êxito e manter a integridade física de todos: refém e presos. O mais importante ali era manter o controle da situação e evitar que qualquer tragédia acontecesse.
Parecia que as horas não tinham coragem de passar, mas sabíamos que lá dentro os esforços contínuos dos policiais trariam, mais cedo ou mais tarde, uma solução para o caso.
Ao amanhecer, os presos passaram a exigir que representante do Ministério Público e que o Juiz fosse até o local para conversarem com eles como condição para liberarem a vítima; mas essa exigência não poderia ser atendida. O negociador teve que convencê-los de que isso estaria fora de cogitação em razão de ser considerada uma quebra no protocolo de negociação.
De que todos ali teriam interesse na resolução do problema com menos efeito colateral possível, mas desde que tudo acontecesse dentro da legalidade e do respeito aos protocolos.
Os presos ameaçaram endurecer novamente e a tensão se reinstalou, mas o negociador fez questão de deixar muito claro que cada ação deles geraria uma reação proporcional.
Que as forças estatais de segurança são extremamente bem preparadas para lidar com essas situações e que o caminho do diálogo seria o mais recomendável para evitar que a situação se descambasse para uma tragédia e causasse prejuízos imensuráveis para todos.
As horas passaram lentas, pesadas, intermináveis.
Até que por volta da 15h os presos resolveram a ceder e colocar um fim na rebelião. e assim liberaram o refém que estava bem, apenas cansado e querendo ir pra casa .
A primeira etapa havia sido concluída com sucesso, mas a tensão ainda permanecia no local, porque os policiais ainda precisariam ingressar no interior da cadeia para conter todos os presos no pátio e realizar as revistas e varreduras necessárias para avaliação de danos patrimoniais, apreensão de possíveis armas artesanais e eventuais telefone celulares usados pelos presos para se comunicarem com o ambiente externo.
Por volta das 18h, por fim, a rebelião havia terminado.
O agente penitenciário refém havia sido entregue aos seus familiares. Ele evitou de falar com a imprensa,não deixou nenhum relato, nada! Apenas saiu — como quem volta de um lugar de onde não deveria ter estado! Silêncio. O mesmo silêncio daquela noite que passou junto aos presos.
Ao final, tive ainda a oportunidade de entrevistar o delegado da época e o negociador.
E assim terminou a rebelião que virou Arapoti de cabeça para baixo; uma rebelião que eu não só cobri... Eu vivi! Eu respirei! Eu estava lá!!!!




















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